Em Cabo Verde desde a década de 80, a AICEP-Portugal Global tem como principal função apoiar os operadores portugueses nos seus negócios neste arquipélago. Com a crise ou sem crise, Cabo Verde é actualmente o terceiro mercado dos produtos portugueses em África, depois de Angola e Moçambique. Banca, infra-estruturas, turismo, telecomunicações são alguns sectores onde Portugal dá cartas em Cabo Verde. Segundo o responsável da AICEP, João Pedro Pereira, as feiras realizadas no país são exemplo de uma “parceria de sucesso”, como é o caso da FIC, que pode ser potenciada com outras actividades paralelas. Com dezenas de acções individuais e seis missões empresariais já na agenda, 2010 é, como prevê JPP, o ano de novas intenções de investimento luso.
A Semana (AS) - Há quanto tempo está a AICEP em Cabo Verde? João Pedro Pereira (JPP) - A nossa presença com representação oficial em Cabo Verde remonta aos finais da década de 80. Desde então, o nosso trabalho tem contribuído para o estreitar de laços entre as economias dos dois países. Os nossos esforços contribuíram para a realização de inúmeros investimentos e para a instalação de muitas empresas portuguesas. Estas empresas, na sua grande maioria, têm sido importantes na criação de emprego, na formação dos trabalhadores, na melhoria da oferta de produtos e serviços, contribuindo activamente para o desenvolvimento de Cabo Verde | . |
AS - Ao longo destes anos, como tem sido a relação empresarial de Portugal para com Cabo Verde?
JPP - O balanço que faço é muito positivo. O desempenho empresarial português é reconhecidamente fundamental em sectores chave da economia cabo-verdiana, cumprindo um papel muito relevante no desenvolvimento económico do país.
No sector turístico, a presença do Grupo Pestana e do Grupo Oásis trouxe um contributo importante para este sector em Cabo Verde, com um conceito de turismo que interage com a “morabeza” local para criar uma dinâmica de crescimento num sector económico e que é socialmente muito significativo.
No sector financeiro, a banca comercial – a Caixa Geral de Depósitos através do BCA e do Banco Interatlântico e o Banif através do BCN - tem o reconhecimento público do bom trabalho que realiza em prol do desenvolvimento de Cabo Verde. No contexto do apoio ao investimento, o Banco Espírito Santo tem sido também um “player” importante. No sector industrial, todos reconhecem o importante contributo fabril que a VerdeVeste e a Icco dão a Cabo Verde, exportando para Portugal a quase totalidade da sua produção têxtil e de calçado, respectivamente. Estas duas empresas empregam centenas de trabalhadores e trouxeram importante aporte tecnológico.
 | Nas telecomunicações, a presença da Portugal Telecom, através da CV-Telecom tem sido um contributo importante para o desenvolvimento tecnológico nesta área e naquilo que é o posicionamento e ligação de Cabo Verde com o mundo. No sector da construção a presença da Mota-Engil, da Monte Adriano, da MSF, da Armando Cunha e da Somague são garante de capacidade de resposta às necessidades de infra-estruturação de Cabo Verde. |
Recorda-se o sector dos combustíveis, em que a GALP, através da sua participação na ENACOL, é uma referência incontornável, o sector automóvel de que o Grupo Salvador Caetano e o Grupo Auto-Sueco são exemplo.
É importante salientar que o tecido empresarial português em Cabo Verde não se fica por estes sectores, abrangendo muitos outros com um contributo fundamental de PME muito proactivas e dinâmicas. Trata-se de empresas bem integradas, participativas e com responsabilidades sociais, desempenhando um papel relevante do ponto de vista social e cultural, estando à altura dos desafios e contribuindo para o desenvolvimento de Cabo-Verde.
AS - Que ilhas são as mais procuradas pelos portugueses?JPP - Não tenho dúvida de que a cidade da Praia e a cidade do Mindelo são os locais preferidos para a instalação da generalidade das empresas portuguesas. Deste modo, Santiago e S.Vicente são duas das ilhas mais apetecíveis. Contudo, dado o seu desenvolvimento turístico, as ilhas do Sal e da Boa Vista também são pólos muito atractivos para as empresas portuguesas.
AS - Quais os sectores em que tem verificado intenção de investimento e aposta em Cabo Verde?JPP - Neste último ano tenho verificado uma diversificação nas intenções de investimento no sector dos serviços ao sector produtivo. As empresas que têm recorrido ao apoio da AICEP-Portugal Global neste mercado, não se concentram nos investimentos turísticos.
A título de exemplo, posso referir o recente e significativo investimento do Grupo Magensinus na Escola de Negócios e Tecnologias de Cabo Verde, que já iniciou actividade com os cursos, técnico-profissionais de gestão e informática, propondo-se oferecer cursos de marketing e de técnicos de energias renováveis a partir do próximo ano.
As energias renováveis, aliás, são uma área muito interessante em desenvolvimento neste país. Pela vasta experiência e pelo reconhecimento mundial e pela qualidade da oferta disponível que detém neste sector, Portugal poderá ocupar uma posição de destaque em Cabo Verde, com soluções inovadoras e em condições certamente muito atractivas do ponto de vista económico.
AS - A crise que Portugal tem vivido tem afectado o investimento no exterior?JPP - É natural que o momento económico difícil que se vive à escala mundial obrigue as empresas a uma reflexão sobre a afectação dos seus recursos. Em alturas como estas, os promotores de investimentos em sectores que não se encontram na lista das principais e fundamentais prioridades dos consumidores têm de reposicionar as suas estratégias. Trata-se de uma normal exigência de gestão.
No entanto, devo salientar que, no mercado de Cabo Verde pude assistir ao posicionamento de diversas empresas portuguesas que olham para este momento de crise como um momento de oportunidade.
AS – Cabo Verde pode ser um bom mercado para as empresas portuguesas combaterem a crise?JPP - No exacto sentido em que se deve olhar para os mercados que estão em crescimento para encontrar as oportunidades que escasseiam nos países mais afectados por este ciclo económico negativo. A aposta estratégica na infra-estruturação do país representa um conjunto de oportunidades interessantes para as empresas nacionais; o salto tecnológico, que o Governo de Cabo Verde pretende dar encontra nos exemplos portugueses e nas nossas empresas as soluções adequadas; a aposta num turismo de gama média-alta tem na experiência portuguesa motivações e apoios para o seu desenvolvimento; a aposta nas pessoas e na sua formação, como recursos fundamentais para o futuro, tem como parceiro ideal Portugal com a excelência das suas universidades e do ensino profissionalizante. Entendo que a crise mundial é uma oportunidade, não só para empresas portuguesas que olhem para este mercado como eixo estratégico da sua internacionalização, como também para o desenvolvimento de Cabo Verde.
AS - Qual o papel que a AICEP-Portugal Global deve desempenhar em Cabo Verde?JPP - A representação da AICEP-Portugal Global, desde que cheguei, em finais de Fevereiro do ano passado, passou a contar com o Serviço de Apoio à Empresa. As empresas podem dispor de uma sala dentro do nosso escritório com acesso a telefone, computador, internet e com o nosso apoio administrativo. Neste espaço o empresário pode-se pré-instalar, enquanto não encontra instalações definitivas para a sua empresa. Este serviço é apenas uma das actividades de facilitação que podemos desempenhar. Poderemos ajudar as empresas nas suas questões com as autoridades e com empresas locais. Estando mais próximo das empresas podemos entender os problemas que têm e procurar as melhores formas de os resolver. Podemos ter um papel na criação de sinergias entre as empresas para aumento da penetração dos nossos produtos e serviços. Igualmente importante é a detecção de oportunidades de negócio e sua divulgação.
AS - Como se posiciona a AICEP-Portugal Global no mercado de Cabo Verde?JPP - Desde a primeira hora que temos mostrado disponibilidade para colaborar com as instituições cabo-verdianas. Temos sido activos no fomentar de parcerias, colaborando na criação de diversas parcerias que serão, com toda a certeza, muito importantes para a economia de Cabo Verde.
As empresas e instituições em Cabo Verde sabem que podem contar com a nossa ajuda na criação de pontes para o desenvolvimento de negócios e de colaborações. Por seu lado, as empresas Portuguesas sabem que contam com o nosso apoio no seu processo de internacionalização neste mercado. Não posso deixar de aproveitar esta questão para agradecer a disponibilidade, das autoridades locais e das suas instituições, para o diálogo connosco, e elogiar o espírito de colaboração que têm tido.
AS - Há reflexos visíveis da visita oficial do Primeiro-Ministro de Portugal, em Março último?JPP - A visita oficial correu muito bem, os diversos protocolos e memorandos que foram assinados causaram impacto junto das empresas e naturalmente que os gestores portugueses passaram a olhar para Cabo Verde com mais interesse e maior motivação. Como reflexo deste sucesso os nossos serviços passaram a receber mais contactos das empresas nacionais.
AS - Do ponto de vista económico e dos negócios, como analisa a importância da língua portuguesa?JPP - À partida, quando nos referimos ao mercado da língua portuguesa estamos a falar de um mercado de cerca de 300 milhões de consumidores. E esse será sempre um primeiro mercado a explorar: pela proximidade cultural, pelos laços afectivos, pelas portas que nos abre pelo mundo fora se olharmos à diáspora dos países de língua oficial portuguesa.
A língua portuguesa é um factor de competitividade da economia e um instrumento fundamental para o desenvolvimento dos negócios dentro do espaço de língua comum que partilhamos.
AS - Como avalia a FIC e as restantes feiras realizadas em Cabo Verde durante este ano?JPP - O balanço da feira é muito positivo, quer para as empresas portuguesas participantes, quer para Cabo Verde. Não podemos esquecer que o clima económico que temos atravessado é adverso e a participação de um número tão significativo de empresas portuguesas numa Feira representa um esforço salutar dos empresários que a Associação Industrial Portuguesa mobilizou para este evento.
A Feira Internacional de Cabo Verde tem sido, ao longo dos anos, factor de captação de investimento para este País. A parceria da FIC com a AIP-FIL na organização deste grande evento é um exemplo de uma parceria de sucesso. Acredito que este evento pode ainda ser potenciado, com actividades laterais que enriqueçam o conhecimento sobre Cabo Verde (workshops sobre: taxas aduaneiras, impostos, licenças de importação, possibilidades de grupagem das cargas, potencial turístico, apoio ao investimento, etc.).
Importante seria aproveitar o momento para mobilizar mais profissionais, fomentando reuniões no espaço da feira. Creio que os expositores internacionais ficariam mais motivados a repetirem a presença nos anos vindouros.
As restantes feiras foram positivas e enriquecem o panorama de feiras em Cabo Verde. Penso que a calendarização, sendo feita com seis meses de antecedência, facilita a divulgação e a mobilização de empresas internacionais para a participação.
AS – Que perspectivas tem a AICEP-Portugal para 2010?JPP - Acredito no incremento da actividade empresarial durante este ano e será natural que surjam novas intenções de investimento. Para 2010 teremos perto de 60 acções individuais de empresas apoiadas pelo QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) e ainda seis missões empresariais de associações.
Texto: ISABEL Marques NOGUEIRA
Fotos: ENEIAS RODRIGUES